[ cinco e meia da tarde : trinta de outubro de 2011 ]

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independente da réplica e da assistência dum making of

hora de calar

portanto

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corpo

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[ onze da manhã : vinte e nove de outubro de 2011 ]

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Na quarta-feira passada um dos meus editores, o Marcelo Ferroni, fez a gentileza de mandar por sedex para Porto Alegre, onde estou há duas semanas, o exemplar de prova do livro que a gráfica lhe enviou para conferência (ou seja: o primeiro primeiro mesmo). O livro chegou ontem e de fato ficou belíssimo. Não tenho palavras para agradecer toda atenção que recebi dos editores, ao fato de concordarem (sem condescendências) com minhas sugestões e de melhorá-las.

Lembro da reunião na qual os detalhes de formatação e escolha de produção de capa, orelhas e contracapa foram fechados – numa tarde da semana na casa da Rua Cosme Velho, sede da Objetiva – Isa Pessoa, como editora geral da Objetiva, e Marcelo, como editor da Alfaguara, provaram mais uma vez o quão importante são os verdadeiros editores, os que respeitando o autor sabem aprimorar o que pretende, sabem apontar com objetividade o que não funciona (por várias vezes fiquei impressionado com as sacadas antecipadas da Isa, sintetizando o embolado de vontades que eu manifestava; houve a longa conversa sobre o índice, Marcelo me dizendo: Paulo, o índice, como você pretende, só vai confundir gratuitamente o leitor) e, de outro lado, o que merece mesmo ficar.

É um livro cheio de detalhes e ainda assim é um livro em que diminuo a ênfase na linguagem focando mais na direção da narrativa, da história em si (nisso esteve um dos desafios postos lá no início). O minimalismo da capa (o falso minimalismo, já que traz boa quantidade de informações), o índio colorado sem cabeça criação da Retina 78, a diagramação sem ornamentos gráficos. Tudo isso para que o entrecruzamento de personagens se justificasse por si – não seria errado dizer que escolhi as personagens, seus perfis, e só a partir delas fui encontrar as soluções narrativas.

Um livro que teve cento e tantos começos diferentes, que teve sete versões diferentes, trocas dos nomes das personagens centrais (isso até o momento da última revisão de provas). A atenção exaustiva dedicada ao início – que acabou ficando bem direto e sem rodeios e sem a tal ênfase na linguagem -, vale o registro, se deveu ao fato de querer reproduzir a mania que alguns autores têm de incluir nas primeiras linhas do romance o mapa de toda a história. O mapa que fiz está lá, numa repetição de palavra, nem tão implícito, pelo contrário, destoante, primário, completo na primeira página.

Agradeço o carinho de quem vem acompanhando esse cruzeiro, esse diário; espero que no seu acanhamento ele sirva para alguma coisa.

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[ cinco e meia da tarde : dezoito de outubro de 2011 ]

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release e primeiras páginas do livro no site da editora : aqui

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[ uma e vinte da manhã : cinco de outubro de 2011 ]

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Rener = antinômicos.

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[ dez e meia da manhã : quatro de outubro de 2011 ]

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Escolher um tema é acabar impregnado por seus subtemas e pelas coincidências que eventualmente te levam a pessoas que se ocupam da mesma matéria, do mesmo assunto, da mesma sorte que você. Na sequências de bairros (Botafogo, Humaitá, Jardim Botânico, Gávea) que alinha pessoas e ideias aqui no Rio de Janeiro, mais especificamente num almoço com minha amiga editora Anna Dantes, descobri que Anna está envolvida com um belíssimo projeto junto a uma comunidade indígena no interior do Acre. Para saber mais: aqui.

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Foto de menininha do povo Huni Kuin (conhecidos como KAXINAWA) por Anna Dantes. Num imaginário qualquer poderia ser o registro de Maína quando criança (sei lá, só um pensamento ingênuo diante da força da imagem).

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[ sete da manhã : vinte e três de setembro de 2011 ]

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DO SEGUNDO NARRADOR
DO TERCEIRO NARRADOR
DO QUARTO NARRADOR
DO QUINTO NARRADOR E A CARTA

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no seu lugar entraram os títulos de cada um dos quatro capítulos

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[ seis e quinze da manhã : vinte e três de setembro de 2011 ]

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estudo de capa (foram três), abaixo está o que se tornará a capa definitiva

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clique sobre a imagem para ampliar

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[ duas e vinte da manhã : vinte de setembro de 2011 ]

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terceira prova entregue na editora, agora é o livro em meados de outubro

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[ quatro e quinze da manhã : primeiro de setembro de 2011 ]

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sonho sobre o sonho sobre o sonho ( esperando a segunda prova do livro )

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[ oito da noite : vinte de agosto de 2011 ]

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Recife = trânsito entre duas vidas.

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[ duas da tarde : vinte e nove de abril de 2011 ]

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Quatro narradores diferentes e o falso deslocamento do centro narrativo para Maína.

E já avisando que a redundância é absolutamente proposital.

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[ sete e meia da noite : vinte e dois de fevereiro de 2011 ]

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Iádia agora é Maína. Na verdade, voltou a ter o nome original.

Cortei uma sequência inteira de sete páginas.

Aqui um trecho com o motorista que a pegou pedindo carona na estrada:

“Dirige até o depósito, preenche a papelada habitual, troca de roupa, bate o ponto, vai até o estacionamento, entra no seu Passat setenta e nove. O destino rotineiro é sua casa na Vila Elza em Viamão, mas toma outro caminho, passa em frente ao posto onde a deixou. Ela não está lá, ainda assim ele sinaliza e entra. Nem precisa sair do carro para avistá-la sentada em uma das cadeiras do escritório do posto com o guia telefônico aberto sobre o colo. Antes de encontrá-la, faz sinal ao Freitas, o dono do estabelecimento, e pergunta o que a indiazinha está fazendo. Ele diz que ela está procurando uma rua que não sabe o nome, mas que pelo jeito fica perto da Avenida Ipiranga. Então Bruno vai até o escritório, ela sorri ao vê-lo. Ele diz que a ajudará a encontrar o lugar. Não que ele tenha entendido tudo direito, mas parece que se forem até o início da Ipiranga e seguir em adiante chegarão a uma parte da avenida onde ela terá certeza de que deverão dobrar à direita e começar a procurar a tal rua e a tal casa. Numa das tantas curvas da Ipiranga, ele entra em um posto de gasolina para ligar a uma das suas vizinhas que tem telefone em casa e pedir que avise a sua esposa sobre o atraso inevitável. Será no máximo meia hora. Quando volta ao carro a pega completamente desapercebida do que se passa ao redor conversando entusiasmada na sua língua indígena com o bebê.”

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[ oito da manhã : nove de outubro de 2010 ]

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Cícero deixou de existir. Os que não leram o segundo tratamento jamais saberão as consequências deste final conversa:

“(…) ‘Olha só, Catarina, minha bateria vai acabar…’. A ligação cai. Cícero não tem o menor pudor em usar a desculpa do fim da carga do telefone toda vez que atende a ligações que poderiam ser urgentes, mas que, segundo seus critérios nada usuais, nem chegam perto de ser. Dali a cinco minutos seu celular já estará ligado de novo (ela sabe, e não faz diferença).”

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[ quatro da manhã : oito de julho de 2010 ]

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“(apesar disso, às vezes tem a impressão de que estranho seria viver sem precisar se esforçar para falar, sem os dribles no seu próprio aparelho vocal). Saltar de uma sílaba para outra, de uma palavra para outra dentro do tempo normal exige toda sua concentração, exige até que imagine ser outra pessoa, o que não chega a ser uma performance, embora seja bem parecido com isso. Há os que não gaguejam quando falam uma língua estrangeira, os que não gaguejam cantando, atuando; Donato levou esse aspecto em consideração e tenta utilizá-lo sempre que pode, por mais difícil que seja se passar, de súbito, por outra pessoa, tomar emprestada a naturalidade de outra pessoa. Repetir os sons até pode ser charmoso (não para todas as meninas, para algumas: trinta por cento? Quarenta?), fazer como os ingleses fazem, como o Hugh Grant faz em Quatro Casamentos e um Funeral. A repetição é passável desde que não ocorra em concomitância com as travadas. Travadas podem ser charmosas se não forem longas e se forem impecavelmente preenchidas por movimentos compensatórios de cabeça e braços (ele mudou sua opinião quanto ao uso dos braços) produzidos com alguma graça, com malemolência, sensualidade e algo próximo das chamadas técnicas de misdirection, que induzem a atenção do espectador para um ponto diferente daquele onde ocorre a ação principal do mágico. Agora, com relação aos prolongamentos de sons não há saída, quando acontecem é porque o domínio já foi perdido e só resta parar e recomeçar do zero, ou, o que não é nada recomendável, prosseguir incorporado pelas piores remexidas e espasmos de olhos e boca.”

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[ meio-dia : dezenove de junho de 2010 ]

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As “imagens” do livro (coisa da minha cabeça) têm grande influência de dois grandes ilustradores amigos meus: Guilherme Pilla e Fabio Zimbres. Gostaria muito que, de alguma forma, este trabalho do Pilla fosse aproveitado na capa do romance. A ver.

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“espantalho vermelho” – ilustração de Guilherme Pilla

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[ uma hora da tarde : dezessete de junho de 2010 ]

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madeira-tanque / miolo emperra / máscara vestido / expulsão / peito e rosto / nau habituada a mar / gema que se acomoda em ferros / cães salivando ataque / esfola de plumas / réptil / réptil sem bom senso de aguardar / revelia / imundice descaso / progresso exótico / ao preço de perder a cura / palavras geminadas em estagnação / falta de ar / maneira de linguagem / pesponto na palma da mão do ventríloquo / (lentidão e coisas que mudam) / sonho e teima / escora tecida de felicidade / empuxo de ímpeto e mira / toda estranheza do xadrez no peão / (o prato está emborcado) / incômodo enorme / incômodo / ímpeto manada estranheza / fileiras e fileiras de modos decorados / domínio na arte de embromar / aquário emparedado pela vista / novo espinhaço / forma lenta de assustar / barreiras conspurcado / cós que o aceita parado / telhado tombo / câimbra de não errar / trincado ereto chão / biótipo zoológico / promessa que não pode dar / salmoura de cinzas / corpo vidraça / vértebras ovulação / rito de empecilho fúlgido / vírus arrestado / cadarço de brinquedo / raiar à procura de ladrão / prazos de vela e querosene / e uma cantiga diagonal / igreja vareja / caminha dentro de estátuas / embrulhado em papel manteiga / máscara cheirando praia maisena / fedendo a cartões postais / distribuição do arrego / um corredor de apartamentos / apartamentos enrolados na cintura / magra é a tragédia / não importa / seu prumo é vir / não mostrará alegria / o que já é vitória / tempo curto / centímetros de sonho a esgotar / hotel imenso custo / ímpeto manada estranheza / uma forma de entender / de explicar / porque demora / alma presa no arame / (fósforo da tragédia) / o rumo da perda / o senso da pedra / acerto final / desterrar / dor / vôo punitivo

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[ nove horas da noite : vinte de abril de 2010 ]

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Mexendo nas anotações, descobri uma de 2009 sugerindo que “o eco (o desconforto imenso do protagonista) da história se ocupe menos da ação das personagens do que da paisagem”; tentando ser mais claro, o reflexo que ecoará nos conflitos do protagonista, Donato, será justamente o reflexo da duma série de acontecimentos inusitados ocorridos às margens da BR-116, no trecho perto do município de Barra do Ribeiro, Rio Grande do Sul, onde há série de pequenos acampamentos indígenas; continua enrolado, sei… ainda assim, aqui está o nosso começo

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